Trecho IV - CAPÍTULO TRÊS: A PARÁBOLA
20 20UTC ago 20UTC 2006
Trecho IV - CAPÍTULO TRÊS: A PARÁBOLA
“Shariputra, suponha que num país, numa cidade, ou num vilarejo, exista um homem já avançado na idade e muito rico, de ilimitados bens e fortuna, possuindo muitas terras, casas e empregados”.
“Sua casa é ampla e espaçosa, tendo somente uma porta, mas repleta de muitas pessoas, talvez cem, duzentas ou quinhentas delas habitando ali”.
“Seus salões e quartos estão ruindo de velhos; suas paredes estão cedendo. Os pilares estão podres em suas bases; as vigas e travessas estão caindo perigosamente”.
“Subitamente, através da casa, um fogo se irrompe, deixando a casa em chamas”.
“Os filhos daquele velho homem, dez, vinte, talvez trinta deles estejam dentro da casa”.
“O velho homem, vendo o fogo subir pelos quatro cantos, ficou alarmado e fez a seguinte reflexão: ‘Embora eu tenha sido ágil o bastante para escapar em segurança através desta porta em chamas, todos os meus filhos permanecem dentro da casa ardente, felizes e apegados aos seus brinquedos, distraídos, desconhecendo essa situação, não alarmados e sem medo. O fogo os encurralará e o tormento os afligirá, mas em suas mentes eles não pensam nisto e nem têm qualquer intenção de escapar’”.
“Shariputra, o velho homem então refletiu: ‘Tenho corpo e braços fortes. Posso envolvê-los num pano, protegê-los num malote ou caixa e retirá-los da casa’. Ele refletiu ainda: ‘Esta casa possui somente uma porta estreita e pequena . Meus filhos são jovens, imaturos e nada sabem ainda. Apegados ao seu lugar de diversão, eles podem cair e serem consumidos pelo fogo. Devo falar-lhes a respeito deste temeroso assunto, que a casa pegou fogo e eles devem apressar-se em sair para não serem queimados’. Pensando assim, ele falou aos seus filhos, dizendo: ‘Saiam, todos vocês, rapidamente’! Embora o pai, em sua compaixão, buscasse induzi-los com boas palavras, todos os filhos permaneciam ainda alegremente apegados aos seus brinquedos e jogos, e recusavam-se a compreendê-lo. Eles não estavam assustados ou temerosos e não tinham a mais leve intenção de deixar a casa. E o que é mais, eles não sabiam o quê significava ‘fogo’, o quê significava ‘casa’ ou o quê significava ‘estar perdido’. Eles meramente corriam de um lado para outro no jogo, olhando para o seu pai”.
“Então o velho homem teve esta idéia: ‘A casa já está em brasas com o grande incêndio. Se meus filhos e eu não nos retirarmos a tempo, certamente seremos queimados. Deverei então utilizar-me de um meio hábil, de tal forma a evitar esse desastre’”.
“O pai, conhecendo as predileções dos seus filhos e as preferências de cada um por diversos brinquedos preciosos e brincadeiras raras, aos quais eles respondiam com felicidade, falou-lhes o seguinte: ‘As coisas com as quais vocês realmente gostariam de brincar são raras e difíceis de obter. Se vocês não as aceitarem, certamente arrepender-se-ão mais tarde. Coisas tais como: uma variedade de carros puxados por carneiros, puxados por cervos e por bois ; encontram-se agora do lado de fora da casa para o seu divertimento. Saiam todos rapidamente desta casa em chamas e eu darei tudo quanto vocês queiram’”.
“Então as crianças, ouvindo seu pai falar desses preciosos brinquedos que correspondiam exatamente aos seus maiores desejos, impeliram-se avidamente acotovelando-se uns aos outros em louca disparada, todos brigando para sair da casa em chamas”.
“Naquele momento, o velho homem ao ver que todos os seus filhos haviam saído em segurança e encontravam-se sentados no chão à beira da rua, sem mais nenhum obstáculo; sentiu-se em paz e cheio de satisfação”.
“Então todas as crianças falaram ao seu pai, dizendo: ‘Pai, os finos brinquedos que o senhor prometeu-nos instantes atrás, os carros puxados por carneiros, os carros puxados por cervos e os carros puxados por bois, por favor, dê-nos agora’”.
“Shariputra, naquela ocasião o velho homem deu igualmente a todos os seus filhos uma grande carroça. A carroça era alta e ampla, adornada com uma infinidade de jóias entrelaçadas, circundada por balaústres e pêndulos com sinos nos seus quatro lados. Além disso, era coberta com pálios adornados com vários tipos de jóias preciosas e raras, estirados com cordas de jóias e pingentes com borlas floridas. A carroça era forrada com belos tapetes e seus assentos de almofadas rosadas. Era puxada por um grande boi branco de delicada aparência, de grande força muscular, que tinha um pisar suave, tão leve como o vento, tendo também muitos criados que a seguiam e protegiam”.
“E por que é assim? Aquele velho homem possui ilimitados bens e fortuna, e todas as espécies de armazéns lotados até transbordar. Portanto, ele refletiu assim: ‘Minhas posses são ilimitadas. Eu não daria às minhas crianças carros pequenos e inferiores. Todos esses adolescentes são crianças a quem eu amo sem parcialidade. Possuindo tais grandes carroças feitas das sete jóias, infinitas em número, eu as darei igualmente a cada um. Por quê? Se eu as desse para um país inteiro elas não escasseariam; quanto menos se as desse para minhas crianças’!”.
“Entretanto, todas as minhas crianças estão andando em torno das grandes carroças, uma vez que obtiveram o que nunca esperavam; muito além das suas expectativas originais”.
“Shariputra, o quê você pensa? Quando aquele velho homem dá igualmente a todas as suas crianças a grande carruagem cravejada de jóias, ele é culpado de falsidade ou não?”
Shariputra respondeu: “Não, Honrado pelo Mundo. O velho homem não é culpado de falsidade porque ele apenas capacitou as suas crianças a evitar a calamidade do fogo, e com isso salvou as suas vidas. Por que é assim? Ao salvar suas vidas ele já lhes deu um fino brinquedo. Quanto mais ao utilizar-se de meios hábeis para salvá-los da casa em chamas”.
“Honrado pelo Mundo, se aquele velho homem não tivesse dado-lhes igualmente mesmo que um simples pequeno carro, ainda assim ele não teria dito falsidades. Por quê ? Porque o velho homem previamente tinha em mente o seguinte: ‘Usarei meios hábeis para levar minhas crianças para fora’. Por esta razão ele não é culpado de falsidade. Ele é igualmente sem culpa uma vez que, sabendo que seus bens e fortuna eram ilimitados e desejando beneficiar a todas as suas crianças, deu-lhes igualmente uma grande carroça”.
O Buda disse a Shariputra: “Excelente, excelente! É justamente como você diz”.
N.T. - Seguirão trechos selecionados do Sutra, dada a impossibilidade de publicá-lo na íntegra neste Blog.

